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Publicação

A forma ética do cuidar é ver o outro, sua existência

Autor: Regina Célia Simões de Mathis

Cuidar: um verbo que pode indicar ações distintas, conforme é empregado. Como verbo transitivo, pode referir-se à ação de tratar de algo ou de alguém, de zelar ou tomar conta de algo ou alguém, de preocupar-se, de assumir responsabilidade ou dar atenção a algo ou alguém. Já como verbo pronominal tem o significado de ter zelo consigo próprio, de velar por si, de precaver-se (www.lexico.pt/cuidar/).

Pessoalmente, as duas formas me atraem e me encantam, já que gosto muito de caminhos de mão dupla, onde o encontro com outras pessoas se faz a cada instante, e o olho no olho se torna mais possível. É nesse caminho que se encontram numa relação de interdependência mútua todos os seres humanos.

Todos nós já ouvimos falar ou estudamos formalmente sobre a necessidade humana de viver em conjunto, de se relacionar com seus semelhantes. Nem sempre, ou nem todos, sabem que vários estudiosos colocam o Homem como responsável na formação do eu e do outro, num contexto histórico: sim, a História tem lugar de destaque na constituição do sujeito e a cultura em que essa pessoa está inserida, faz parte do seu eu em coexistência com o outro. Para Freire (1996), por exemplo, a construção do eu se dá no mundo, juntamente com a inserção das forças sociais, culturais e históricas. Para ele o homem e a mulher não podem estar no mundo sem estar sendo, ou seja, é na experiência continuada, na relação imprescindivel de uns com os outros vivendo em comunidade, que cada qual alcança o objetivo de se sentir humano. Para que isso aconteça é necessário que na formação de cada indivíduo esteja de algum modo incluída, ou sendo desenvolvida, uma consciência critica que os habilite a compreender, experenciar, duvidar, propor – posturas capazes de torna-los protagonistas de seu determinado momento na história.

Assim podemos dizer o contexto é a chave que explica e perpetua o papel de sujeito do ser humano na dinâmica de sua existência com o outro. Precisamos e sempre precisaremos do outro para nos reconhecermos como humanos. “É na prática de experimentarmos as diferenças existentes que nos descobrimos como eus e tus. A rigor, é sempre o outro, enquanto tu, que me constitui como eu, na medida em que eu, como tu do outro, o constituo como eu.” (Freire, 2000, p.96). Entre outros autores, também Bakhtin (2004), reconhece a influencia que o outro exerce sobre o eu quando afirma que o eu é formado por palavras do outro que são incorporadas, assumidas e modificadas pelo eu.

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Terapeuta Especialista em Terapia de Casal e Família pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. Terapeuta e Intervisora Comunitária Integrativa. Presidente do Conselho de Educadores da Escola de Pais do Brasil.

Se precisamos do outro para nos constituir e crescer em humanidade porque cada vez mais nos deparamos com a conduta nada ética, e mesmo animalesca, de algumas pessoas que se conduzem pela vida como se fossem únicas e merecedoras de satisfazer suas vontades, mesmo que às custas e prejuízos de alguns, ou de muitos? Mais uma vez podemos citar Freire (2008) que afirma ser comum a tendência de acharmos que o diferente do eu, ou seja, o outro é inferior. Baseado nessa crença ou mesmo sem dela tomar conhecimento, o ser humano caminha por estradas desviantes que levam a um único rumo: a intolerância. Quando não vê o outro como um eu, como um semelhante, afasta-se da lei que o homem recebeu há milênios: amar ao próximo como a si mesmo! É então que, separado do amor e acreditando na sua superioridade, ajuda a disseminar a cultura do desrespeito. São momentos em que vemos ou vivemos a instalação de uma escalada de violência que beira a barbárie, onde fatos conhecidos por nós apenas através da história retornam às nossas vidas. Até poucos anos, era-nos difícil imaginar nossos contemporâneos ateando fogo em índio ou em moradores de rua, ou que assassinatos seguidos de esquartejamento dos corpos se tornassem prática tão banalizada a ponto de ser repetida pelos mais variados motivos.

A intolerância nasce e se fortalece na impossibilidade de aceitar e de reconhecer no outro o tu que há em mim (eu) e desta forma, ao ver multiplicadas as praticas de intolerância geradoras de profundos preconceitos o ser humano que um dia aprendeu a se cuidar e a cuidar do outro, vai perdendo a sua fé no outro, e vai se distanciando de seus semelhantes. E, pior, pode terminar se acostumando ao convívio em sociedade sem a necessária dimensão ética que deveria pautar a existência de todos os seres humanos. E nós, que segundo Maturana (2004) nos constituímos como seres humanos no Amor, vamos nos encapsulando em grupos de confiança cada vez menores, vamos nos blindando, e portanto nos separando, de uma infinidade de possíveis experiências enriquecedoras com nossos semelhantes. Porque o outro não nos vê como seu eu, ficamos expostos a todo tipo de agressão e então, em nome do medo nos encolhemos e nos apequenamos.

Podemos corrigir a rota e recuperar o rumo ao lembramos que cuidar, verbo intransitivo que nos remete à solidariedade e cooperação mútua, deve sempre estar atrelado ao cuidar, verbo pronominal: cuidadores não podem se esquecer de cuidar de si próprios em primeiro lugar. Antes de se lamentar pelas exceções muitas vezes ligadas à patologias, o homem deve se unir aos recursos que tem à disposição para cuidar de si, e então poder cuidar do outro, numa entrega respeitosa e não assistencialista. O eu satisfeito, saciado e em paz é capaz de multiplicar-se em bem estar e distribui-lo aos outros, organizando uma ciranda em que os semelhantes podem se reconhecer e se respeitar, apesar das diferenças.

Sim, somos diferentes uns dos outros, e é bom que seja assim. A diversidade é um valor necessário para o nosso enriquecimento, é fundamental para nos orientar e nos fazer progredir. Viver com e para o outro, aceitando-o e respeitando-o como ele é, pode ser traduzido como a capacidade de reconhecer no outro aquilo que conheço em mim: meus defeitos e minhas qualidades, minhas fraquezas e meus esforços para me tornar melhor a cada dia. É promovendo os valores da vida, que transcendem a toda e qualquer limitação humana que podemos celebrar juntos a vivencia de um cuidar ético. Somos parte de um todo maior, somos necessários e importantes para outras pessoas. E podemos nos deliciar com os maravilhosos versos de Caminhos do Coração, de Gonzaguinha:

“E aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente

Toda pessoa tem sempre as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende

que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá

E é tão bonito quando a gente sente

que nunca está sozinho por mais que se pense estar.”

E nesse coro comunitário e ético, Maturana (2004) veria mais uma vez concretizada a sua teoria que nos fala do Amor como ingrediente primário e essencial para nos constituirmos como seres humanos: “o amor é a emoção que constitui o domínio da aceitação do outro em coexistência próxima, já que é a emoção que constitui o domínio de ações no qual o outro é aceito como é no presente, sem expectativas em relação às consequências da convivência, mesmo quando seja legitimo espera-las.”(Verden-Zöller /Maturana, p. 223)

 

BIBLIOGRAFIA:

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch, Marxismo e Filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 2004

FREIRE, Paulo, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 30º. ed. São Paulo: Terra e Paz, 1996

——————— Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. 8ª. reimpressão. São Paulo: Editora Unesp, 2008

——————– À sombra desta mangueira. 9ª. edição. São Paulo: Olho d’Água, 2010

MATURANA, Humberto,VERDEN-ZOLLER, Gerda- Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Atenas, 2004