ACESSE A ÁREA DO ASSOCIADO

Publicação

ANOITECE E O TEMPO ESTÁ BOM

Belo o casal que vive carinhosa e corajosamente  unido até o fim da caminhada! 

Charles Ferdinand Ramuz,  escritor e poeta suíço,  escreveu tocante  declaração de amor de um marido para sua mulher por ocasião dos quarenta anos de vida a dois.

 

Mulher, vem sentar-te ao meu lado, ali no banco em frente à casa:

é teu direito.

Vai fazer quarenta anos que estamos juntos.

 

Anoitece e o tempo está bom e é também o anoitecer de nossa vida:

tu bem mereces um instante de repouso.

 

Os filhos estão encaminhados e se foram mundo afora.

Novamente nós dois, apenas os dois como no começo.

 

Lembras-te mulher?

Não tínhamos nada para começar, tudo estava por fazer.

Nós demos tudo, mas foi duro.

Foi preciso coragem e muita perseverança.

 

É preciso amor.

E o amor não é aquilo que a gente pensa quando começa.

Não são apenas beijos que se trocam, palavras sussurradas ao ouvido ou sentir-se apertado um contra o outro.

O tempo da vida é longo.

O dia das núpcias é apenas um dia e, em seguida, tu te lembras?

É só em seguida que a vida começa.

 

É preciso fazer o que está desfeito; refazer ainda uma outra vez, porque está sempre desfeito.

Chegam os filhos: é preciso alimenta-los, vesti-los, educa-los.

E não acaba nunca.  Às vezes ficavam doentes e tu   passavas a noite em pé.  Eu trabalhava o dia inteiro, do amanhecer ao anoitecer.

 

Às vezes dava desespero:  os anos iam passando e impressão era que não progredíamos.  Parecia até mesmo andávamos para trás.

 

Lembras-te, mulher?

Tantas preocupações, tanto trabalho: somente tu estavas perto.

Permanecemos fiéis um ao lado do outro.

Pude apoiar-me em ti e tu te apoiaste em mim.

Tivemos sorte de estarmos unidos; lançamo-nos os dois à obra, aguentamos firme.

O amor verdadeiro não é aquilo que se pensa.

O amor verdadeiro não é de um dia, mas de sempre.

É ajudar-se, compreender-se.

 

Pouco a pouco a gente vê que tudo se arranja.

As crianças cresceram  e se saíram bem.

Nós lhes havíamos dado o exemplo.

 

Que todas as casas do país sejam sólidas, e o país será solido.

 

Por isso, vem sentar-te aqui a meu lado

e olha pois é tempo da colheita,

quando tudo é rosado ao anoitecer

e uma poeira de rosas se eleva  por toda a parte entre as árvores.

Senta-te bem perto de mim.

Não diremos nada; não precisamos dizer nada.

Precisamos  apenas estar juntos, ainda uma vez e,

no contentamento da tarefa cumprida,

esperar que a noite chegue.