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As conexões e o tempo

“Não, não tenho Facebook”.“Não, não faço parte de nenhuma rede social virtual”. Se você também participa do grupo dos desconectados, com certeza conhece a expressão de estranheza e julgamento que transparece no rosto de quem recebe a resposta acima, caso a pergunta tenha sido feita pessoalmente. Posso sentir na pele a estranheza, quando sou olhada como um ser alienado daquilo que a maioria adota como prática de comunicação usual nestes tempos de 2013. E não para por aí, pois logo a expressão de estranheza cede lugar às de pena ou de horror, geralmente acompanhadas por um “Ahhh!”que pretende ser compreensivo, mas que soa desconfortável, ou de tentativas de me cooptarem a finalmente aceitar fazer parte de uma coisa tãaao legal!

Fico pensando no porque nunca vi expressões de compreensão e respeito à minha escolha? Não fazer parte de nenhuma rede social virtual não me transforma em alienada. Conheço seu funcionamento, e sou completamente amiga do meu computador e da internet, para administrar melhor e de modo mais fácil o meu trabalho e a minha vida pessoal. Acompanho com interesse as novidades e estudos sobre os efeitos no comportamento humano de tais ferramentas de interação virtual. Apenas não tenho interesse em participar das redes sociais porque escolhi priorizar e administrar o meu tempo da forma que eu decidir.

         O meu tempo. O meu tempo e o dos outros. Muitas vezes me sinto desconfortável com a sem cerimônia com que os outros se apoderaram do meu tempo através de inovações tecnológicas. Parece que todo o tempo que ganhei com essas inovações, vem sendo cobrado agora através da participação em redes sociais. Explico.             

  Sou da chamada geração BB, nascida no pós- guerra. Fiz o curso de magistério (antigo curso Normal, para formação de professores) confeccionando cartazes pintados à tinta guache, com títulos formatados em normógrafos para compor o material didático a ser usado em sala de aula. Eram tardes e noites inteiras dedicadas à essa atividade: muito tempo gasto. Usei stencil para distribuir as provas impressas para meus alunos; a tinta azul borrava, tinha um cheiro horrível e também se gastava muito tempo com isso. A máquina de escrever grande e preta, que me ensinou os lugares de cada letra num teclado, muitas vezes, me levou ao desespero, e borrava meus dedos nos papéis carbonos azuis ou pretos, necessários para fazer cópias, às vezes datilografadas repetidas vezes para que pudessem ter a nitidez necessária. Quando errava uma letra ou esquecia de um espaço, muitas vezes o trabalho todo ficava comprometido, ou saia com borrões, muito mal vistos. Agradeci aos céus quando pude comprar uma máquina de escrever portátil, e quase não acreditei no sonho da máquina de escrever elétrica, que embora grande, era leve, e tornava qualquer trabalho mais fácil e limpo, pois continha uma fita corretora de erros.

Agora imaginem quando conheci todas as facilidades de um computador. Como não aderir a eles? E aos note books? E aos tablets? Mais que uma “máquina de escrever”, são rápidos, fáceis de usar, têm programas inteligentes, e tornam qualquer trabalho mais prazeroso e limpo. Com eles também podemos navegar pela internet, e nos comunicar oral e visualmente com amigos e parentes que estejam em qualquer parte do mundo! Para mim, representou a chegada da felicidade completa. Porém, como sempre, o mundo continuou a evoluir e a tecnologia foi se tornando rapidamente, muito, muito, rapidamente, mais sofisticada. E sem cerimônia foi tomando para si modos e modelos de comunicação e relacionamentos. Tudo muito bom, até o momento em que me dei conta de que não daria conta de administrar todas as novidades oferecidas, sem ter que pagar um preço numa moeda, para mim inegociável, nesta etapa da vida: meu tempo e minha liberdade.

                Venho me observando escravizada por situações e tecnologias. Estou totalmente dependente de meu telefone celular, mágico aparelho que substitui outros tantos que antes tinha que carregar, como agendas, máquina fotográfica, filmadora, máquina de calcular, GPS, note book, joguinhos para distrair netos inquietos em horas inadequadas, etc. Mas ele também me traz uma certa exasperação, sempre me avisando, ainda que silenciosamente, da chegadas de mensagens, whatsapp e emails que me exigem decisões e respostas que nem sempre gostaria de dar naquele momento. Sem falar em cobranças do tipo “não recebeu meu recado?!” Nada tenho a esconder, mas não gosto de me sentir à mercê da necessidade do outro; cresce dentro de mim a sensação de não ser mais a dona do meu tempo, do meu ritmo de viver, de decidir quando, o que, e com quem quero falar. Sim, sei que posso desligar ou tirar o som do celular, ou de uma chamada em particular, mas onde coloco a culpa que sinto por essa “indelicadeza”? Sou da geração BB!

               Antes que me entendam mal, preciso dizer que em família, socialmente, e no trabalho, vivo cercada por pessoas conectadas e queridas. Não me chateio com o uso que algumas dessas pessoas fazem de tais conexões; muitas vezes me vejo encantada, observando a expressão de contentamento que elas exibem ao manusear seus aparelhos que os mantém conectados. Lembro da expressão de meus pais e televizinhos em nossa casa, assistindo à televisão. Os tempos mudam, nosso encantamento com o novo, não.

               Estar ou não conectado a redes sociais não é bom ou ruim em si, é apenas opção, e talvez questão de gosto pessoal. O que é divertido para uns pode ser tedioso para outros, ou mesmo impossível de acompanhar para todos. Quem está conectado a alguma rede social pode acessar Blogs.ne10.uol.com.br/mundobit/2013/13/03/24/10 e conhecer as dez novas redes virtuais que, segundo eles, valem a pena experimentar: Médium, Pergunter, Pheed, Skoob, Thumb, Two, Chirp, Chirpify, Vendly, Vine. Ufa, quantas coisas!!! E quando este artigo for publicado, estas novidades poderão estar velhas e ultrapassadas.

               Aos amigos conectados desejo que curtam bastante suas opções, mas que não se deixem escravizar por elas. E que tenham em mente que nada é perfeito, que redes sociais não são apenas um mundo cor de rosa. Há séculos, Sêneca dizia: “justificamos nossos vícios porque os apreciamos, e preferimos desculpá-los a repeli-los”. Com o passar dos anos percebi-me viciada em novos conhecimentos e liberdade, e estou conectada a todas as responsabilidades de todos os meus papéis. E você? Qual o seu vício? Qual a sua conexão?

Regina Célia Simões de Mathis é Terapeuta familiar, Terapeuta comunitária e Membro do Conselho de Educadores da Escola de Pais do Brasil