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Convívio de gerações na família: aprendizado para a vida

Autor: Ceres Laert Cotrim Sampaio

Apesar das significativas mudanças próprias das sociedades, dos períodos particulares de crise e mudanças, a família continua sendo cenário da construção da nossa história, lugar que oportuniza interação e relação, pertença e identidade, onde aprendemos a ser, a viver e a amar.

Esse espaço, onde acontecem as aprendizagens e experiências mais valiosas da vida, precisa ser, para cada um e para todos, lugar de convívio rico de entendimento, respeito, compreensão. O clima de segurança afetiva gerado faz do amor ponte para o encontro.

Podemos achar que esse encontro seria natural em famílias, mas estabelecer relações de afeto exige  escuta atenta e livre expressão de sentimentos, amadurecimento, sabedoria e paciência. Isso não é fácil, mas trabalhar nesse sentido produz recompensas imediatas e em longo prazo.

Atualmente situações como: aumento da expectativa de vida, surgimento de novas uniões conjugais em decorrência do número de separações, trazendo consigo novos pais, novas mães e novos avós, filhos adultos permanecendo na casa dos pais durante muitos anos até conseguirem uma oportunidade que lhes permita sair de casa, fizeram com que várias gerações se encontrem vivendo simultaneamente na mesma família.

Isso tem oportunizado mudanças na forma dos mais novos enxergarem os mais velhos, das pessoas mais velhas enxergarem os mais jovens, e dos próprios jovens e idosos enxergarem a si mesmos, quebrando preconceitos existentes entre as gerações e estabelecendo vínculos afetivos, de solidariedade e de participação conjunta.

Mas os desafios são grandes e por isso exigem atenção, intuição e muita sensibilidade. Essas relações familiares e intergeracionais têm como palco um estilo de vida moderno onde as atividades e metas do dia a dia ocupam fatias de tempo preciosas  e onde fatores externos à família tendem  a interferir no comportamento de cada membro. Por isso, algumas atitudes e pequenos cuidados são  necessários porque sendo a família o espaço onde se processa a nossa existência, é  preciso que seja   lugar de troca de afeto,  mas também de convívio prazeroso:

–  Lembrar sempre que são pessoas com diferentes idades, interesses, experiências e valores, compartilhando o mesmo espaço. Assim é fundamental desenvolver um caminho de tolerância ao ritmo de cada um, e ao modo individual de ser e crescer.

–  Reconhecer que as pessoas são únicas e diferentes. São essas diferenças que as fazem especiais e isso torna as relações mais intensas.

–  Observar a todo o momento que a relação saudável entre as gerações é possível desde que haja respeito entre todas as pessoas e compreensão do momento de vida do outro.

– Entender que o convívio intergeracional, é positivo para todos e uma rica oportunidade de compartilhar sabedoria, crescimento pessoal e aquisição de novos conhecimentos.

O entrelaçamento de gerações vai acontecendo e os papeis sendo construídos no compartilhamento das experiências. Aprendemos a ser avós, pais, filhos e netos a partir das lições que aprendemos e dos vínculos que construímos.  Estes vínculos estabelecem trocas afetivas significativas que fortalecem o amor e estimulam o desejo de cuidar, próprio de quem ama.

O ato de cuidar envolve responsabilidades, preocupação e compromisso. Exige um movimento em direção ao outro e se concretiza no encontro com o outro.  Assim, cuidar ultrapassa o ato transitório de zelo ou preocupação momentânea com o outro, é uma forma de estar no mundo, de nos relacionarmos com os outros.

O teólogo Leonardo Boff  em seu livro “Saber cuidar” nos propõe uma nova ética baseada no modo saber cuidar:

“Cuidar das coisas implica em  ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, respeita-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com, auscultar-lhes o ritmo  e afirmar-se com ele”.

Cuidam-se pais e filhos, netos e avós nas coisas de todos os dias, quando estamos uns com os outros, quando rimos, choramos, discutimos e convivemos.  Nessa troca sedimentada pelo afeto precisamos ser olhados, ouvidos e tocados.

“A ênfase do cuidado ao outro deve ser na qualidade da atenção, uma atenção para fora de si, centrada no outro, para além do que pode ser o meu próprio interesse. Exige que me comprometa, leva-me a agir, apela à minha solicitude na convicção que posso fazer sempre algo mais. E a solicitude exige-me conhecer as necessidades daquele que cuido”.

Precisamos aprender a cuidar dos nossos relacionamentos, das pessoas, da família com uma vontade assumida de estar ali, fazendo do gesto e do afeto caminhos do encontro.

Isso nos leva a concluir que uma prioridade deve ser criar em nossas famílias um ambiente que estimule comportamentos e atitudes que valorizem  a vida. Valorizar a vida é conferir a maior atenção e cuidado com o que é mais importante no ser vivo: o próprio viver.

 

Bibliografia:

Anais do 47º Congresso Nacional: A família administrando seus desafios.

Internet: Caminhos para uma relação segura entre avós. Filhos e netos- Elisandra Vilella G. Sé

Cuidar da família ao longo da vida – Suzana Duro