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Publicação

EDUCAÇÃO, COMPETÊNCIA PRIMORDIAL DA FAMÍLIA

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Petrópolis, RJ
Os membros da Escola de Pais do Brasil não podem deixar de refletir sobre o tema da educação. Eis algumas linhas sobre o tema da família como primeira educadora de seus filhos.

1. O tema da educação das novas gerações ocupa a atenção de todas as sociedades que necessitam cuidar do amanhã de sua gente. Os pais sabem que não basta colocar um filho no mundo. Não se trata apenas de um fato biológico: os que chegam para povoar a terra devem receber as orientações necessárias e ter em mãos instrumentos indispensáveis para poderem crescer como pessoas. E cada pessoa é um profundo mistério a ser desvendado ao longo do tempo da vida. Os pais, diante dos filhos, são “peritos” na arte de viver.
2. O direito de educar os filhos por parte dos pais é original, essencial, primário, insubstituível e intransferível. Destarte, a família não pode descansar e confiar a educação dos filhos aos professores, diretores de escolas ou de faculdades ou orientadores educacionais por mais competentes que sejam. É no seio da família que as crianças aprendem a viver, a viver em sociedade e, no caso dos cristãos, é a ali que podem fazer a experiência fundamental de encontrar a Cristo Jesus. O bem da sociedade depende de famílias bem constituídasque sejameducadoras. Quer dizer tirando para fora dos filhols os valores e os dons que ai foram depositados. Famílias que possam orientar os filhos, quer dizer, apontar para o nascente do sol, ou seja, para Oriente e não para o Ocidente onde o sol morre. A violência disseminada, a desordem em todos os campos da vida, a cultura da morte podem se dever à inexistência de famílias sólidas.
3. Os pais educam olhando, espiando detidamente, contemplativamente, vigilantemente. Educam apoiando, exortando, perdoando, corrigindo, insistindo, abraçando, acarinhando, pacientando, esperando. Educam pela maneira como tratam as pessoas, sobretudo os mais desmunidos de tudo na vida, pelo modo como falam ao telefone, como usam o dinheiro, como abordam e deixam-se abordar por pessoas que não lhes podem oferecer qualquer tipo de retribuição. Educam mais por atitudes do que por discursos. Educam por seu jeito de amar, por sua fidelidade criativa. Os filhos, na verdade, desejam que seus pais estejam presentes em suas vidas, sem sufoca-los, pais que possam ter no fundo dos olhos uma claridade que aponte para um amanhã luminoso.
4. Importante e fundamental que os filhos tenham pontos de referência ao longo de sua caminhada e possam se nortear por alguns critérios básicos. Apesar de toda a complexidade do mundo e da cultura icônica os filhos devem poder traçar as linhas básicas de seu projeto existencial.
5. Educar é diferente de instruir. Nisto consiste o drama. Educar é transmitir certezas e convicções existenciais. Como operar quando os valores que os pais tiveram em sua juventude parecem questionados? Os pais, talvez, aqui e ali falem de garra, renúncia, disciplina enquanto os meios de comunicação sugerem que os jovens coloquem o prazer em primeiro lugar, satisfaçam todos os seus desejos, sejam consumistas, adotem a política da provisoriedade afoitamente, sem refletir.
6. Muitos pais, com razão, preocupam-se que nada de material falte a seus filhos. Pensam no melhor colégio que permita que cheguem vitoriosos a uma faculdade, que viajem, que façam esportes, que aproveitem a vida. Pode acontecer, no entanto, que esqueçam de fazer com que sejam iniciados na arte do relacionamento, da tentativa de existirem para os outros e não apenas voltados para seu pequeno mundo particular. Não lembram que precisam fazer constantes revisões da rota da existência que andam trilhando.
7. Será preciso organizar um projeto educativo a partir de determinadas interrogações que tocam o fundo da pessoa: Quem sou eu? O que são os outros para mim? O que é bem e o que é mal? Quem são os outros? Como descobrir os mistérios escondidos em mim mesmo? Qual a vocação da sociedade e da humanidade em seu sentido global? Percebo em mim mesmo uma sede de infinito e de absoluto?
8. Os pais educarão a partir do amor e para o amor. Trata-se de uma educação para a solidariedade num mundo individualista, interesseiro, consumista de bens e de gente. Educar para o amor quer dizer propor a ética do maximalismo e não no minimalismo. Por meios concretos os pais introduzem os filhos na dinâmica do intercâmbio aberto entre as pessoas. A família é o lugar por excelência em que se pode descobrir o significado mais profundo do vocabulário humano: pai, mãe e irmão.
9. Educar para a solidariedade é aceitar que os outros, os de perto e dos de longe, os de dentro e os de fora façam parte de nosso universo, de nosso mundo e de nossa “família”. Educar para a solidariedade é descobrir que somos interdependentes.
10. Em família aprende-se a hospitalidade, ou seja, fazer lugar em nós para o outro: o pai, a mãe, o irmão sadio e o irmão doente, os avós, os tios. Aquele depois será pedreiro e aquela que será professora de literatura, os que ocuparão lugares modestos e importantes na sociedade serão pessoas equilibradas e abertas porque estudaram na cartilha da solidariedade em suas casas. Em família os filhos aprendem a tecer laços de solidariedade.
11. Em família as pessoas aprendem as virtudes fundamentais que possibilitam a arte da convivência: capacidade de acolher, respeito pelo outro, ajuda mútua, comunicação sincera, ação de cooperação, aprendizado da partilha. Em família são iniciadas na gratuidade, no dar sem medida, no amar sem condições.
12. Diante da “desorientação” geral de nossos tempos, do medo doentio, da falta de confiança no amanhã, do egoísmo, do narcisismo, da liberdade confundida com libertinagem, de uma cega submissão à pressão social as famílias são convidadas a cultivar atitudes pouco comuns em nossa sociedade:
• levar os filhos à interioridade, reflexão e discernimento;
• a crescerem em senso crítico de tal forma que possam justificar com maturidade suas escolhas e opções;
• de modo especial a se exercitarem no senso crítico diante dos meios de comunicação, principalmente das redes sociais digitais;
• levar os filhos a acolherem responsabilidades de forma progressiva assumindo as escolhas feitas; aprender a construir um projeto de vida;
• aceitação da crítica construtiva e da correção fraterna, mecanismos necessários para que as pessoas possam crescer na autonomia; compreender que os laços de fidelidade não se opõem à liberdade, mas levar a arrumar e organizar o tumulto do seu mundo interior.

13. Pano de fundo de uma educação familiar: cultivar um “espírito de família”, evocação em casa da história, das memórias da família dos pais; harmonia do casal apesar das diferenças; ambiente de alegria, cordialidade e acolhida.
14. A educação em família reclama encontros ao longo das refeições, nas comemorações dos grandes e pequenos eventos, oração em comum.
15. Terminamos com reflexão do Papa Bento XVI: “Quando uma criança nasce através do relacionamento de seus pais, começa a fazer parte de uma tradição familiar que tem raízes muito mais antigas. Com o dom da vida recebe todo um patrimônio de experiência. Ora, os pais têm o direito e o dever inalienável de transmitir tal legado aos filhos, de introduzi-los na vida social, na prática responsável de sua liberdade moral e sua capacidade de amar através da experiência de serem amados e sobretudo no encontro com Deus. Os filhos crescem e amadurecem humanamente na medida em que acolhem com confiança esse patrimônio e essa educação que vão assumindo progressivamente. Deste modo são capazes de elaborar uma síntese pessoal entre o que receberam e o que é novo e que cada um e cada geração são chamados a realizar” (V Encontro Mundial com as Famílias, 9 de julho de 2006, Espanha).