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Ética: educar para o domínio do bem e da virtude

Autores: Helena M. S. Sigaud e Cesar Augusto G. Sigaud

Vivemos muito, será que melhor? Viver muito nos leva à vivência do dia a dia, à convivência entre as pessoas, aquilo que é construído culturalmente e, de certo modo, pode-se dizer que a pessoa acumulou experiência de vida. Trata-se daquilo que foi acumulado.

Jorge Larrosa afirma que “a experiência é o que se passa comigo e que, assim, me forma, ou me transforma, me constitui, me faz como sou, marca minha maneira de ser, configura minha pessoa e minha personalidade”, é o sentido que se dá às vivências.

Cortella diz que a palavra experiência, etimologicamente falando, tem dentro de si a palavra perigo. Experire é acercar-se do perigo, é saber enfrentá-lo.

Terezinha Azerêdo Rios afirma que na palavra desafio, há a ideia de desconfiança, Logo, confiar é fiar, e desconfiar é desafiar.

Viver é um desafio, desafio da criação do inédito, segundo Cortella e que exige coragem. Mas, nada disso nasce do nada. Ganhamos a vida, o ponto de partida para essa grande aventura, mas precisamos estar preparados para vivê-la intensamente, enfrentando os perigos e os desafios. Para isso, é preciso que os pais preparem seus filhos para essa tarefa, através da educação. Sem ela, iremos agir irresponsavelmente, sem refletir, apressadamente. Crescemos. Mas com medo e muitas vezes sendo incapazes de uma avaliação crítica, sem considerar nossos limites e possibilidades para vencer os obstáculos.

Que educação estou transmitindo aos meus filhos, ao mesmo tempo em que estou vivendo e convivendo com os mais próximos? Que sentindo estou imprimindo à vida e o que estou ensinando às crianças? Quais os nossos valores e que tipo de ética vivemos  em nossa vida? Será que a experiência de vida da nossa família nos forma, nos transforma e nos marca de modo positivo e significativo? Qual o sentido que estamos dando às nossas vivências? Estamos nos corrigindo frequentemente e sempre procurando o norte? É através do diálogo e do exemplo de vida que nós, pais, ensinamos.

Vulgarmente, tratamos a ética e a moral como sinônimos. Mas não são. A ética considera o que pensamos acerca da vida, do universo, do ser humano e do seu fim, com seus valores e princípios que norteiam a sociedade de um modo geral. A pessoa ética é aquela que tem caráter. A moral se refere à vida concreta, no agir do dia a dia, de acordo com os costumes e valores da sua comunidade, o que não impede de ser questionado pela ética.

Atualmente, vivemos um tempo perigoso para o ser humano e estamos convencidos, depois de assistir a tanta barbaridade que a TV nos apresenta, que tudo é fruto da falta de valores, de uma ética que queira bem ao ser humano e seja capaz de cuidar dele, com o carinho que ele merece. Às vezes, a sensação que temos é que tudo pode acabar, se continuarmos a maltratar o planeta, as crianças, as pessoas. Parece que as pessoas perderam seu valor.

A E. P. B. se preocupa muito com a morada humana, pois é nela que os seres vivem e deveriam se formar para o mundo. Cuidamos do espaço físico, como quartos, sala, jardim, etc. e deveríamos também cuidar do espaço humano, das relações entre as pessoas da morada e das relações com os vizinhos, e a comunidade, com valores e princípios dos chefes da família que ali reside. Cada morada tem seu próprio caráter, seu modo particular de ser. A ética de uma sociedade começa na morada de cada família, que mora numa cidade, num Estado, num País. Em cada morada há pessoas que têm seus valores e princípios.

Com o mundo tão globalizado, com as comunicações instantâneas, a ética seguiu o rumo da razão (instrumental-analítica), que tem por produto maior a tecnociência, que influencia todas as sociedades e civilizações. Seu alcance é fantástico, sem limites para o saber, o que faz o seu poder alcançar esferas ilimitadas, levando até vida para fora do nosso planeta. Esse poder pode nos causar muitos males. Podemos pensar que dominamos o mundo pela tecnologia.

O Ser humano com suas necessidades está sendo esquecido. O reflexo disso aparece logo na convivência social, pois o que vemos é um egoísmo generalizado, de cada um por si, teclando celular ou tablets. As conversas em família ficaram para trás, não há mais tempo. Temos constatado que muitos alunos de onze anos ou mais não sabem o que seus pais fazem. É muito triste.

Uma grande dificuldade é o pluralismo cultural, que relativiza os valores. Neste quadro é difícil saber o que é certo e o que é errado. A Pós-modernidade também suprimiu qualquer hierarquia e com isso fundou uma liberdade pessoal absoluta, desde que a liberdade do outro seja respeitada. As religiões que poderiam socorrer essa sociedade, que poderiam ser uma fonte de valores éticos, se enrijeceram em muitos casos, tornando-se fundamentalistas, políticas, negando-se ao diálogo com a Modernidade.

Para se chegar a um bom termo, ao reino da ética, devemos superar a lógica utilitarista que está dominando todos os setores da vida. Há o mundo daquilo que vale e que não aparece porque não tem preço, o mundo da gratuidade, da solidariedade, do respeito pelo outro, da amizade, do amor, do perdão. Sem esse mundo a vida perde sentido. Esses são verdadeiros valores, valem por si mesmos e só começam a existir no seio das famílias, na vivência do dia a dia, com os pais e avós presentes e quando são praticados num clima afetivo e de bem querença.

Só assim esse clima vivido nos lares pode transbordar para a vida social, porque essas famílias desenvolveram em seus filhos uma sabedoria de viver e estes, na vida adulta, poderão submeter a economia à política. Esta deve visar o maior bem possível de todo povo. Finalmente, a política se submetendo à ética, que prioriza os valores humanos. É uma tarefa de gigantes para pais e filhos. Só precisam ter consciência do imperativo do momento que se vive.

 

Livros consultados:

  • Cortella, Mário Sérgio, “Vivemos mais! Vivemos bem? Por uma vida plena”, e Terezinha Azerêdo Rios, Campinas, SP, Papirus 7 Mares, 2013, Coleção Papirus Debates.
  • Larrosa, Jorge in opus.cit.
  • Boff, Leonardo, “Ética e Moral: a busca dos fundamentos”, Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
  • Boff, Leonardo, “A Grande Transformação: na economia, na política e na ecologia”, Petrópolis, RJ: Vozes: 2014.