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Publicação

INTIMIDADES COMPARTILHADAS: famílias em relacionamento sério com as redes sociais

Intimidade, família, relacionamento e redes sociais são palavras em relação. Implicam  afinidade e incidem em ambiente de diferenças e igualdade, amor e desafetos, convivência e desacordo, privacidade e publicidade. Um espaço familiar. Mas não era esse o lugar da intimidade resguardada, do segredo compartido, da rede de amparo e da proteção da vida?

Há pouco tempo, o que era dado a uma família pertencia tão somente a ela, pais e filhos decidiam por escolha e vontade, quando a informação devia ser comentada, curtida, partilhada. Ainda, quem eram seus amigos e quantos eram. Sua casa, sua rede frequentavam seus convidados.”No passado, as pessoas tinham círculos sociais pequenos, fechados, nos quais familiares amigos próximos, vizinhos e líderes comunitários formavam uma rede de proteção e ajuda”. (Folha de São Paulo, 30 de setembro, 2013.) Entretanto, quando se fala hoje em redes, amigos, intimidades e família é possível distinguir quais são os meus seguidores, qual é a sua rede, que informação diz respeito a sua ou a minha família? Estamos em relacionamento sério. Com quem?

Faço essa afirmação para contar um fato. Antes devo juramentar: sou mãe, professora, educadora na era da comunicação digital, do compartilhamento das experiências de nossos filhos  e alunos. Outro dia, depois de mais uma festa de aniversário de um deles, fui coagida a ouvir os comentários e postagens sobre os casos, durante o “FDS”. (fim de semana).

O primeiro “amigo” comentou: – professora, fulana não é mais aquela! Tratava-se de uma estudante concentrada, de comportamento exemplar, excelente desempenho e provavelmente cautelosa em ambientes públicos. Optei por me fazer de oculta. Dei início à aula, mas outros “amigos” persistiram com a provocação. Consenti a prosa, disse que as mudanças são importantes, que as pessoas mudam porque conhecem, aprendem, experimentam…

Daí em diante, as indiretas foram direcionadas à garota: – beijou muito fulana?… Interferi dizendo que o gesto era conhecido, natural. Busquei tratar a questão de modo que pudesse promover uma reflexão, um aprendizado, talvez. Até que um deles resolve exibir imagens da colega na rede de relacionamentos. Fui apanhada por sentimento maternal. Era com se fosse minha filha, minha família e nossa intimidade divulgada de maneira desautorizada, maliciosa, criminal. Permita-me o desabafo. Meu sentimento foi de indignação, tristeza, desconforto.

Usei a autoridade no sentido mais original da palavra: “fazer crescer a idade”, um papel social para pais e mães que em vista de seus filhos igualitários, não podem omitir-se do dever. Impedi a tentativa da exposição, indaguei sobre o “pecado” cometido, propus que cada um se colocasse no lugar da amiga, que ocupasse o lugar de um irmão, dos pais, da fulana e o meu lugar. Questionei sobre o valor da amizade, do relacionamento, da humanidade. Exagero! É possível que tenham pensado assim ao meu respeito. Verbalizei, mas enquanto professora, mãe e família for, será preciso elucidar: o que a minha família tem a ver com a sua família na sociedade das mídias em rede?

Qual o limite, a privacidade, o perigo que ameaça o relacionamento entre os nossos filhos? A inteireza da nossa família? Com que direito posso invadir a intimidade do outro e tripudiar de sentimentos, atitudes, erros e acertos daqueles tão semelhantes? Quando uso e abuso das redes de relacionamento o que pode acontecer?

É fato que as redes sociais estão presentes no cotidiano. Elas são reflexo do incremento tecnológico que se impõe como recurso de desenvolvimento e desempenho social. Mas, afinal, para que servem? De que maneira podem impactar a vida das pessoas, famílias e sociedade? É possível ter noção da sua força? São elas apenas simples aplicativos que permitem a troca de ideias e fotos, bate papo, espaço virtual de encontro entre amigos e colegas de escola a fim de incentivar relacionamentos?

Trata-se de uma novidade que estampa a notícia, insere a sociedade no espaço político, econômico, acadêmico? Oferece interessantes aplicativos que dão suporte e facilitam os relacionamentos, estimula intensa e diversificada participação de todos, aproxima distâncias num mínimo espaço de tempo, muito rápido, em um clique apenas, repercute um comportamento isolado e individualizado do homem contemporâneo?

Quantas vezes por dia ouvimos falar das redes sociais? Fala-se sobre as últimas novidades e os aplicativos a serem lançados, sobre as formas de uso, sua interação com telefones celulares, com a TV. É do conhecimento de todos a força dessas redes, elas são uma realidade importante, estabeleceram-se e devem evoluir progressivamente, portanto certamente impactam sobre o comportamento dos indivíduos e na sua relação familiar e social.

No que se refere ao espaço familiar e social, faz-se necessário considerar a convivência entre indivíduos oriundos de gerações e tempos distintos, bem como, as mudanças rápidas pelas quais família e sociedade passam. Desenvolvimento tecnológico, força da globalização, progressão da conectividade (facilidade nas conexões cibernéticas, dificuldade de conectividade humana, razão do pouco desenvolvimento da inteligência relacional e de habilidade para administrar conflitos numa sociedade de redes), abundância de ofertas e escolhas e a avalanche de informações. Eventos que acarretaram mudanças de paradigmas e consequentes reflexos na educação e na gênese das novas gerações.

Diante desse cenário, pode-se publicar: estamos todos: pais, filhos e famílias imbricados em uma única rede de relacionamentos. Num espaço infinito e virtual de possibilidades. Como repartir a existência sem partir as vidas?  Partilhamos publicamente do dever de divulgar os valores: amizade, humanidade, família como estado de bem universal?

Motivar questões pode ser uma atitude generosa, mas relacionamento sério mesmo, seria adicionar você: pai, mãe, filhos como meus amigos. Aceita?

Cinthia Barreto Santos Souza é graduada em Letras com habilitação em Português, Inglês e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia (1997). Especialista em Leitura, Linguística e Produção de Textos, Psicopedagogia Escolar, Mídias na Educação, Educação à Distância. Mestre em Família na Sociedade Contemporânea pela Universidade Católica do Salvador (2012). Doutoranda do Programa de Pós-graduação da UCSAL. Professora do Ensino Superior e Médio com experiência comprovada. Pesquisadora do grupo FAPEB/ Família, poética e autobiografia/ UCSAL. Membro da Escola de Pais do Brasil desde 1990, atuando como palestrante e autora de artigos e capítulos. Temas de interesse: leitura, texto, discurso, narrativas. Família, poética, resiliência, relatos autobiográficos.