ACESSE A ÁREA DO ASSOCIADO

Publicação

O Poder do perdão: reflexões para a família

REGINA CÉLIA SIMÕES DE MATHIS

Em nosso caminhar pela vida não raras vezes nos deparamos com pessoas ou situações que nos trazem sentimentos de impotência, de paralisia, que nos angustiam e nos deixam interiormente agitados: são as ocasiões em que as coisas não aconteceram do jeito como gostaríamos, ou pior ainda, se deram (ou não) de forma frontalmente oposta ao que esperávamos. Nesses momentos, perdemos nosso equilíbrio interior e somos tomados por sentimentos perigosos que trazem, inclusive, prejuízos para a saúde e bem estar, tais como as mágoas, o rancor e a desesperança. É quando precisamos reavaliar as consequências daquilo que nos fez mal. É o momento em que precisamos entender o que significa o perdão.

Perdoar é um processo complexo, que envolve no mínimo duas pessoas, e que exige o entendimento de uma situação. Vivemos num mundo gerenciado por sistemas de reconhecimento e castigos. Através da troca, do exercício de dar e receber, aprendemos maneiras diferentes de buscar reconhecimento, poder e amor. É na família que as crianças aprendem a economizar, negociar, trabalhar, ser avarento ou generoso com seus pertences materiais e emocionais. Mais tarde esse aprendizado será adaptado, aperfeiçoado ou negado no ambiente externo.

Sabemos que não existem medidas certas para o dar ou o não dar, mas devemos ficar atentos à reação provocada pelos motivos de nossas ações, que nem sempre correspondem às expectativas ou interpretação correta daquele que as recebe. As pessoas não são iguais e não pensam da mesma maneira. Devemos sempre lembrar que situações não explicitadas podem minar relacionamentos durante anos e perpetuar por gerações!

Compaixão = amor incondicional. É a mais pura forma de amor, a mais elevada forma de energia. É terapêutica e contagiosa, pois quando acontece para uma pessoa, outras tantas podem ser curadas. Já ouvi dizer que todas, ou quase todas, doenças humanas são causadas pela falta de amor… o ser humano não tem sido capaz de amar, não tem sido capaz de receber amor, não tem sido capaz de compartilhar o seu ser. É a miséria humana, capaz de dar vida a todo tipo de complexos internos, que trazemos escondidos bem no fundo de nós. Maria Betânia canta linda e apropriadamente a respeito: “Minha vida, que parece muito calma tem segredos que eu não posso revelar. Escondidos bem no fundo de minh’alma, não transparecem nem sequer em um olhar…”

Por melhores intenções que tenhamos, nem sempre acertaremos com todos os nossos semelhantes, nem eles conosco, qualquer que seja o papel que representem em nossas vidas. Daí a importância de aprender o que é perdão, aquele perdão que aprendemos a repetir na oração que o Senhor nos ensinou:“perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…” Será?

Perdoar é uma forma de se atingir a calma e a paz para o outro e para consigo mesmo. É aprender a fazer as pazes com as negativas que a vida nos traz, com as decepções que nos consomem e que não vêm somente de pessoas a quem não somos chegadas ou afeiçoadas, mas também daquelas que nos são próximas e queridas. Como diz Sheakspeare, em “O Menestrel: “um dia você aprende que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-la de vez em quando. E você precisa perdoá-la por isso!!!” Perdoar é um difícil aprendizado. É um processo que reduz a agitação que nos consome, dando lugar a uma experiência íntima de recuperação da paz e do bem estar almejado.

Mas atenção: perdoar não significa necessariamente que o fato acontecido deva ser ignorado… apenas torna esse fato menos importante em nossas vidas. O perdão reconhece o mal mas permite que o prejudicado leve a vida em frente. O perdão pode conviver com a justiça, e não impede que se tomem as providencias justas ou adequadas – apenas evita que voce as faça de modo transtornado, ou rancoroso.

Outro lembrete importante: relacionamentos humanos são complexos, e não se pode simplesmente distinguir neles uma pessoa boa e uma pessoa ruim, mas sim, duas pessoas que criaram juntas uma situação difícil.

O psicólogo americano Fred Luskin sugere nove passos para se chegar ao perdão:

1-   saiba exatamente como você se sente sobre o que ocorreu e seja capaz de expressar o que há de errado na situação. Então, relate a sua experiencia a umas duas pessoas de confiança.

2 – comprometa-se consigo mesmo a fazer o que for preciso para se sentir melhor. O ato de perdoar é para você, e ninguém mais. Ninguém precisa saber da sua decisão.

3 – entenda seu objetivo. Perdoar não significa neconciliar-se com a pessoa que o perturbou nem se tornar cúmplice dela. O que você procura é a paz.

4 – tenha uma perspectiva correta dos acontecimentos. Reconheça que o seu aborrecimento vem dos sentimentos negativos e desconforto físico de que você sofra agora, e não daquilo que o ofendeu ou o agrediu dois minutos- ou dez anos – atrás.

5 – no momento em que você se sentir aflito, pratique técnicas de controle de estresse para atenuar os mecanismos de seu corpo.

6 – desista de esperar de outras pessoas ou de sua vida, coisas que não escolheram dar a você. Reconheça as “regras não cobráveis” que voce tem para a sua saúde ou para o comprometimento seu e dos outros. Lembre a si mesmo que voce pode esperar saúde, amizade e prosperidade e se esforçar para consegui-los. Porém você sofrerá se exigir que essas coisas aconteçam quando você não tem o poder de fazê-las acontecer.

7 – coloque sua energia em tentar alcançar seus objetivos positivos por um meio que não seja através da experiencia que o feriu. Em vez de reprisar mentalmente sua mágoa, procure outros caminhos para seus fins.

8 – lembre-se que uma vida bem vivida é a sua melhor vingança. Em vez de se concentrar nas mágoas – o que daria poder sobre você à pessoa que o magoou – aprenda a buscar o amor, a beleza e a bondade ao seu redor.

9 – modifique a sua historia de ressentimento de forma que ela o lembre da escolha heróica que é perdoar. Passe de vítima a herói na história que você contar.

Gosto muito desses passos e, se me permitem, acrescento algumas ações para você incorporar à sua vida em qualquer situação: respire bem, sorria muito, agradeça sempre, cante e dance… seja sempre generoso com você! Eu também estou nesse aprendizado…

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

LUSKIN, Fred. O poder do perdão. 2006: Novo Paradigma

BETHÂNIA, Maria. O doce mistério da vida. 2003. Música do álbum “Cantos, preces, súplicas à Senhora do Céu”.

REGINA CÉLIA SIMÕES DE MATHIS

TERAPEUTA FAMILIAR

PRESIDENTE DO CONSELHO DE EDUCADORES