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O que confunde as crianças? A não-identificação com seu sexo ou a implantação de dúvida sobre ele

Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira

As pessoas nascem com um sexo biológico que, no geral, se desenvolve, também, psicologicamente. Há casos em que o sexo biológico é um e o psicológico, outro, e em casos muito expressivos, ocorre a chamada disforia de gênero. O fato é que a criança nasce com um sexo biológico. Ela é o que é. Como vai se desenvolver sua condição sexual ou de gênero será questão que poderá, ou não, corresponder ao sexo biológico, dependendo de vários fatores, entre os quais a educação.

A criança observa aquilo que ela vive. Se, por volta de dois anos e meio, três anos, ela já adquiriu controle de esfíncteres, ao ver o amiguinho deixar escapar “xixi”, poderá dizer que precisa avisar a mãe ou a professora quando tem vontade de ir ao banheiro. Isso é agir a partir de experiência de si. Na fase pré-escolar a criança ainda não tem experiência de sexualidade. Ela apenas está começando a perceber que meninas tendem a gostar mais de princesas e meninos, de super-heróis, mas isso não lhe traz problemas. Os adultos, sim, é que podem problematizar sua vida ao não deixar que viva, a seu tempo, as experiências pessoais e sociais.

Crianças brincam de ser o outro. É bastante comum meninos pequenos experimentarem os sapatos de salto alto da mãe, o que não guarda qualquer conotação sexual ou de gênero. Ele apenas saboreia a experiência. O mesmo se diga de meninas tentarem urinar em pé.

Embora seja a cultura que define os comportamentos, o indivíduo nasce com características físicas que o definem, biologicamente. É possível, em alguns casos, que um indivíduo nasça com um sexo biológico, não se identifique com ele e sinta-se como se fosse do outro, o que lhe acarreta tão intenso sofrimento a ponto de interferir em seu desenvolvimento geral. Ela pode estar vivendo a disforia de gênero, um deslocamento em relação a seu sexo biológico.

Nesses casos, pode ocorrer rejeição pelos aspectos anatômicos: o menino, com horror ao pênis e aos testículos; a menina, acreditando que o clitóris se transformará em pênis, que não se lhe crescerão os seios nem terá menstruação. Ao mesmo tempo, manifestam-se comportamentos, como não tolerar vestimentas próprias de seu sexo biológico e preferir brincadeiras e companheiros do sexo oposto. A criança se sente em desacordo com o corpo que tem.

A maneira como a família encarar o fenômeno fará grande diferença no desenvolvimento psicoemocional da criança, se saudável ou não. A resistência rejeitadora provocará grande sofrimento na criança, dificuldade de se adaptar, brincar, aprender, e conviver. Ela deve ser acolhida, respeitada, ajudada e tratada, não para que se reverta tal condição à força, mas para que possa sentir-se adaptada, socialmente, e feliz, como ela for ou puder ser. De qualquer forma, alguns obstáculos provavelmente terá que superar pela vida.

Há espaços clínicos especializados nesses atendimentos, não para tratar no sentido de busca de mudança, mas para avaliação e ajuda. E nem todos os casos caminham nessa direção.

De outro lado, porém, em geral as crianças se desenvolvem em conformidade com seu sexo biológico. Elas vivem a experiência e não a discutem. Há, porém, uma corrente de educação que pretende que as crianças sejam educadas sem que se lhes diga se são meninos ou meninas para que definam seu gênero mais tarde. Algumas famílias e escolas a têm adotado.

Ora, nenhuma pessoa sente-se nada, nem homem nem mulher, e para poder discutir sua sexualidade precisa ter alguma experiência de si, saber algo a seu respeito. Uma criança para chegar a isso precisa estar envolvida, emocionalmente, em intenso sofrimento, que não lhe permita conviver, desenvolver suas habilidades e viver, senão não lhe será possível apreender o conceito. E colocar tal tema em sala de aula, sob o argumento de ensiná-la a não discriminar e a conviver com o diferente, não tem qualquer razoabilidade, deixando-a em um vácuo de identidade, o que poderá acarretar problemas de ordem relacional, social e mental.

O que confunde a criança não é a não identificação com seu sexo biológico, se compreendida e bem atendida; é a implantação de ideia de que ela não é nem menino nem menina. E, no entanto, a pessoa humana é: do ponto de vista da espécie, macho ou fêmea; do ponto de vista biológico, homem ou mulher; e, do ponto de vista social, masculino ou feminino. Assim, tomar uma posição de indefinição não resolve o problema da diferença, que é o que a escola tem que ensinar a respeitar.

Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira

Psicóloga, Advogada, Terapeuta individual e de familiar, Mediadora e Perita em consultoria de família